quinta-feira, 29 de julho de 2010
Resto
Valho menos que
O vinho que percorre
Toda a taça para vir me habitar a boca.
Boca feita de pele crua,
Tão repleta de dentes,
Tão pouco poética,
Quanto o resto de mim,
Quanto o resto que sou agora.
Valho bem menos que
As rimas fáceis, solitárias
Que saem das minhas mãos
Ridiculamente minúsculas e fracas.
Valho bem menos que os pesadelos
Que me despertam na madrugada.
E menos ainda que as lágrimas,
Que ardem em meio à insônia
Dessa madrugada despertada.
Lágrimas rasas,
Submetidas ao cárcere dos meus olhos.
Valho menos que
Esse vento que me corta a cara
Em meio ao instante intermediário:
Nem tarde, nem noite.
Valho mais que
O amontoado de sonhos mortos
Que pesam no dorso da minha alma.
Valho mais. Valho mais,
Pois tenho a coragem e a dor
De quem asfixia os próprios sonhos,
A coragem e a dor
De quem sabota a própria tranqüilidade.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Cacos de louça
Dias de insônia e febre
Um piano que eu
Nunca soube tocar
Um bolo que eu nunca
Soube fazer
E nem você
Cacos de louça
Azul-pombinho
Pra procurar
E mais tarde
Uma vida inteira
Pra me fazer dormir
Me pediu pra sorrir
Mas eu nunca
Consegui
Me pediu para
Não chorar
Mas agora
Eu não posso evitar
Daria o meu sono,
Daria todo azul,
Aprenderia piano
Se você pudesse se lembrar
domingo, 8 de novembro de 2009
De passagem
A felicidade
De novo me apareceu
E desta vez
Estava radiante,
Meio desajeitada
Acho até que
Estava embriagada.
Gargalhou o passado
E recuperando o fôlego
Contou-me o futuro
Estava de passagem
Antes de ir
Ainda me sorriu
Deu-me flores,
Verdade,
Ontem mesmo
As coloquei num vaso.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Ritmo de um relógio parado
Hemorragia de tristes memórias
Que não quer estancar,
O som infernal
Do que não se pode esquecer.
O cheiro do apartamento,
A paisagem na janela,
O frasco vazio:
Tudo respira o passado.
A vida que funciona
No ritmo de um relógio,
Há tempos,
Parado.
Mente infeliz
Que resguarda
O próprio pesadelo,
Que guarda lembranças
Que não se quer lembrar.
sábado, 1 de agosto de 2009
Sobre o tédio [...]
Casa vazia
Chão limpo
Que brilha.
Luz do dia
Insistente
Grita do
Lado de fora.
Teto e
Paredes
Brancos
E só.
Já não
Me incomodo.
Acho graça
Do tédio
Dou razão
Pra solidão
Compreendo
O vazio
Me agrada
A reclusão.
sábado, 11 de abril de 2009
Tardes verdes ou Treze
Lembro as tardes
Tardes verdes de
Grama molhada
E de olhos calados.
Tardes de dezembro,
Tardes de pouca idade,
Tardes fora de casa,
Tardes fora de mim.
Foram estranhas,
Foram belas.
Agora são tardes velhas
Vou guardá-las
Dentro de um livro,
Acho melhor assim.
Tardes verdes de
Grama molhada
E de olhos calados.
Tardes de dezembro,
Tardes de pouca idade,
Tardes fora de casa,
Tardes fora de mim.
Foram estranhas,
Foram belas.
Agora são tardes velhas
Vou guardá-las
Dentro de um livro,
Acho melhor assim.
sábado, 31 de janeiro de 2009
De todas as coisas
Dos meus pensamentos mais leves,
Do meu sono mais profundo,
Das cores mais lindas que conheço
E Da beleza do meu recomeço.
Dos meus anéis de prata,
De minhas certezas mais concretas,
Das minhas palavras mais corretas,
De todas as minhas contas quase exatas.
Das noites que considero melhores,
Da realidade que não se escolhe,
Dos sentimentos duvidosos
E dos meus discursos virtuosos
E do que chamo caminho,
Da alegria do vinho
Da fugacidade que ferve
Lhe entrego a parte que não me serve,
Tudo o que se joga fora
Tudo que é meu e vai embora.
Do meu sono mais profundo,
Das cores mais lindas que conheço
E Da beleza do meu recomeço.
Dos meus anéis de prata,
De minhas certezas mais concretas,
Das minhas palavras mais corretas,
De todas as minhas contas quase exatas.
Das noites que considero melhores,
Da realidade que não se escolhe,
Dos sentimentos duvidosos
E dos meus discursos virtuosos
E do que chamo caminho,
Da alegria do vinho
Da fugacidade que ferve
Lhe entrego a parte que não me serve,
Tudo o que se joga fora
Tudo que é meu e vai embora.
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