Não que me desagrade
o inferno externo:
Cada qual com sua demonicidade
Caminhando ou nos dirigíveis
Trafegam pelo inferno público.
Posso até dizer que gosto
da presença desses diabos
os vertebrados, os pobres, os ricos.
E não me chateio com
os sons cruéis que emitem
nem com os sons que fazem emitir.
Não me importo com toda a fumaça
das máquinas, dos cigarros alheios.
Olhando para o céu vermelho
banhado de sangue do dia que
morre pela espada de Jorge,
me retiro do inferno exterior
para o reservado não menos infernal,
vou fumar meu cigarro,
a cada trago, mais sangue no céu
mais sangue no inferno público,
mas aqui no meu inferno particular
vou estender a mão para fora da janela
comprimir a brasa contra a parede da fachada
e observar as faíscas que se libertam do cigarro
e voam pela janela para morrer como o dia
agora um cadáver já coberto
por um plástico preto como a noite.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
guar(dados)
E se dos olhos escapa a luz que não compreendo,
eu a capturo e a reservo num pote em conserva,
pois como me arranjo?
Que se por acaso da vida me acontece
uma noite puramente de sombra.
E se me sopra a palavra alta que não me cabe na palma,
eu a envolvo num pano e levo comigo
e deixo que se crie no quintal,
pois como me arranjo?
Que se por acaso da vida ache de me ser desleal o dia,
entregando manhã sem o sol e sem grito de brisa que me desperte.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
1/4
Um quarto do segundo:
da memória um quadro.
De um quase ao todo,
No âmago do nunca, um quando.
No coração, lodo.
Entre os dedos, lascas.
Dos dias, nacos.
De ti, nada.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Matutinas
Manhã-sangria:
Sol em lava
Um corte rente à fibra
Que enrijece a carne fria.
Céu líquido:
Saciar a sede dos dias
Afogar versos tardios.
Despertar viscoso:
Deserto em vertigem
Decerto vestígio
De um alvorecer morto.
terça-feira, 8 de março de 2011
Noturnas
Mastigo a noite crua:
Um gosto de sorte,
Consistência de lua.
Roubo a febre da cidade,
Que arde, arde.
Sangro o peito do silêncio,
Assombro a
Que treme, treme.
Velo o sono do beco,
Faço do céu abrigo,
Do amanhecer segredo,
Faço do Sol um arcanjo,
Do sono um medo.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Natureza Morta
Vivacidade posta à mesa
Faz-se cadáver, confunde-se
Pseudovidas com pseudofrutos
Jarras de barro com almas de vidro.
Não prometo flores,
Mas se houver
Poderá mastigá-las,
Desfrutar do sabor
Das tintas escuras.
Não prometo toalha
Ou legume, isso é detalhe.
No entanto alerto,
Para que não reclame,
Talvez haja um crânio
Se for desejo de Cézanne.
Deixe que seque
Essas palavras
Se são elas
Fruto amargo
Da minha natureza
Essencialmente morta.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Dias (finais)
Quando a febre da noite
Começa a cessar
E a saudade toma o alaúde
Para uma última canção,
Quando a cidade,
Feito Fogo ralo, se apagar
E o que é breve
Tornar-se imensidão,
Verei a execução
Dos meus dias
Em horas,
Em forcas,
Receberei o que
Me é de reserva
Sem honras,
Sem forças.
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