sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Dias(infernais)
Rasgam-se
As nuvens dos meus olhos
E delas desaba chuva.
A água percorre meu corpo:
Que se faz terra firme e fria.
Das nuvens também
Escorre vinho tinto.
Meus olhos agora rubros
Estão, agora, cegos.
Do interior das densas nuvens
Caem vidas inteiras
Que voavam em asas de cera.
Caem anjos,
E a legião em terra firme
Faz-se um exército de demônios.
Estão enfim decretados
Os dias infernais.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Dias (iguais)
Esse outubro em águas
Janela para um certo dezembro:
Tempo vespertino em cor,
Inquilino (maldito)
Da memória.
Aqueles mesmos ventos
Ainda gritam, esmurram
A porta do quarto.
Aquela retina de sol,
Não mais,
Ilumina meus dias,
Os mesmos dias
Encharcados de chuva.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Resto
Valho menos que
O vinho que percorre
Toda a taça para vir me habitar a boca.
Boca feita de pele crua,
Tão repleta de dentes,
Tão pouco poética,
Quanto o resto de mim,
Quanto o resto que sou agora.
Valho bem menos que
As rimas fáceis, solitárias
Que saem das minhas mãos
Ridiculamente minúsculas e fracas.
Valho bem menos que os pesadelos
Que me despertam na madrugada.
E menos ainda que as lágrimas,
Que ardem em meio à insônia
Dessa madrugada despertada.
Lágrimas rasas,
Submetidas ao cárcere dos meus olhos.
Valho menos que
Esse vento que me corta a cara
Em meio ao instante intermediário:
Nem tarde, nem noite.
Valho mais que
O amontoado de sonhos mortos
Que pesam no dorso da minha alma.
Valho mais. Valho mais,
Pois tenho a coragem e a dor
De quem asfixia os próprios sonhos,
A coragem e a dor
De quem sabota a própria tranqüilidade.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Cacos de louça
Dias de insônia e febre
Um piano que eu
Nunca soube tocar
Um bolo que eu nunca
Soube fazer
E nem você
Cacos de louça
Azul-pombinho
Pra procurar
E mais tarde
Uma vida inteira
Pra me fazer dormir
Me pediu pra sorrir
Mas eu nunca
Consegui
Me pediu para
Não chorar
Mas agora
Eu não posso evitar
Daria o meu sono,
Daria todo azul,
Aprenderia piano
Se você pudesse se lembrar
domingo, 8 de novembro de 2009
De passagem
A felicidade
De novo me apareceu
E desta vez
Estava radiante,
Meio desajeitada
Acho até que
Estava embriagada.
Gargalhou o passado
E recuperando o fôlego
Contou-me o futuro
Estava de passagem
Antes de ir
Ainda me sorriu
Deu-me flores,
Verdade,
Ontem mesmo
As coloquei num vaso.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Ritmo de um relógio parado
Hemorragia de tristes memórias
Que não quer estancar,
O som infernal
Do que não se pode esquecer.
O cheiro do apartamento,
A paisagem na janela,
O frasco vazio:
Tudo respira o passado.
A vida que funciona
No ritmo de um relógio,
Há tempos,
Parado.
Mente infeliz
Que resguarda
O próprio pesadelo,
Que guarda lembranças
Que não se quer lembrar.
sábado, 1 de agosto de 2009
Sobre o tédio [...]
Casa vazia
Chão limpo
Que brilha.
Luz do dia
Insistente
Grita do
Lado de fora.
Teto e
Paredes
Brancos
E só.
Já não
Me incomodo.
Acho graça
Do tédio
Dou razão
Pra solidão
Compreendo
O vazio
Me agrada
A reclusão.
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