terça-feira, 8 de março de 2011

Noturnas


Mastigo a noite crua:
Um gosto de sorte,
Consistência de lua.
Roubo a febre da cidade,
Que arde, arde.
Sangro o peito do silêncio,
Assombro a triste figura do sereno,
Que treme, treme.
Velo o sono do beco,
Faço do céu abrigo,
Do amanhecer segredo,
Faço do Sol um arcanjo,
Do sono um medo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Natureza Morta


Vivacidade posta à mesa
Faz-se cadáver, confunde-se
Pseudovidas com pseudofrutos
Jarras de barro com almas de vidro.

Não prometo flores,
Mas se houver
Poderá mastigá-las,
Desfrutar do sabor
Das tintas escuras.

Não prometo toalha
Ou legume, isso é detalhe.
No entanto alerto,
Para que não reclame,
Talvez haja um crânio
Se for desejo de Cézanne.

Deixe que seque
Essas palavras
Se são elas
Fruto amargo
Da minha natureza
Essencialmente morta.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dias (finais)


Quando a febre da noite
Começa a cessar
E a saudade toma o alaúde
Para uma última canção,
Quando a cidade,
Feito Fogo ralo, se apagar
E o que é breve
Tornar-se imensidão,
Verei a execução
Dos meus dias
Em horas,
Em forcas,
Receberei o que
Me é de reserva
Sem honras,
Sem forças.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dias(infernais)


Rasgam-se
As nuvens dos meus olhos
E delas desaba chuva.
A água percorre meu corpo:
Que se faz terra firme e fria.

Das nuvens também
Escorre vinho tinto.
Meus olhos agora rubros
Estão, agora, cegos.

Do interior das densas nuvens
Caem vidas inteiras
Que voavam em asas de cera.
Caem anjos,
E a legião em terra firme
Faz-se um exército de demônios.
Estão enfim decretados
Os dias infernais.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dias (iguais)


Esse outubro em águas
Janela para um certo dezembro:
Tempo vespertino em cor,
Inquilino (maldito)
Da memória.
Aqueles mesmos ventos
Ainda gritam, esmurram
A porta do quarto.
Aquela retina de sol,
Não mais,
Ilumina meus dias,
Os mesmos dias
Encharcados de chuva.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Resto


Valho menos que
O vinho que percorre
Toda a taça para vir me habitar a boca.
Boca feita de pele crua,
Tão repleta de dentes,
Tão pouco poética,
Quanto o resto de mim,
Quanto o resto que sou agora.

Valho bem menos que
As rimas fáceis, solitárias
Que saem das minhas mãos
Ridiculamente minúsculas e fracas.

Valho bem menos que os pesadelos
Que me despertam na madrugada.
E menos ainda que as lágrimas,
Que ardem em meio à insônia
Dessa madrugada despertada.
Lágrimas rasas,
Submetidas ao cárcere dos meus olhos.

Valho menos que
Esse vento que me corta a cara
Em meio ao instante intermediário:
Nem tarde, nem noite.

Valho mais que
O amontoado de sonhos mortos
Que pesam no dorso da minha alma.
Valho mais. Valho mais,
Pois tenho a coragem e a dor
De quem asfixia os próprios sonhos,
A coragem e a dor
De quem sabota a própria tranqüilidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cacos de louça


Dias de insônia e febre
Um piano que eu
Nunca soube tocar
Um bolo que eu nunca
Soube fazer
E nem você

Cacos de louça
Azul-pombinho
Pra procurar
E mais tarde
Uma vida inteira
Pra me fazer dormir

Me pediu pra sorrir
Mas eu nunca
Consegui
Me pediu para
Não chorar
Mas agora
Eu não posso evitar

Daria o meu sono,
Daria todo azul,
Aprenderia piano
Se você pudesse se lembrar