quinta-feira, 18 de agosto de 2011

guar(dados)



E se dos olhos escapa a luz que não compreendo,
eu a capturo e a reservo num pote em conserva,
pois como me arranjo?
Que se por acaso da vida me acontece
uma noite puramente de sombra.
E se me sopra a palavra alta que não me cabe na palma,
eu a envolvo num pano e levo comigo
e deixo que se crie no quintal,
pois como me arranjo?
Que se por acaso da vida ache de me ser desleal o dia,
entregando manhã sem o sol e sem grito de brisa que me desperte.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

1/4


Um quarto do segundo:
da memória um quadro.
De um quase ao todo,
No âmago do nunca, um quando.
No coração, lodo.
Entre os dedos, lascas.
Dos dias, nacos.
De ti, nada.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Matutinas


Manhã-sangria:
Sol em lava
Um corte rente à fibra
Que enrijece a carne fria.

Céu líquido:
Saciar a sede dos dias
Afogar versos tardios.

Despertar viscoso:
Deserto em vertigem
Decerto vestígio
De um alvorecer morto.

terça-feira, 8 de março de 2011

Noturnas


Mastigo a noite crua:
Um gosto de sorte,
Consistência de lua.
Roubo a febre da cidade,
Que arde, arde.
Sangro o peito do silêncio,
Assombro a triste figura do sereno,
Que treme, treme.
Velo o sono do beco,
Faço do céu abrigo,
Do amanhecer segredo,
Faço do Sol um arcanjo,
Do sono um medo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Natureza Morta


Vivacidade posta à mesa
Faz-se cadáver, confunde-se
Pseudovidas com pseudofrutos
Jarras de barro com almas de vidro.

Não prometo flores,
Mas se houver
Poderá mastigá-las,
Desfrutar do sabor
Das tintas escuras.

Não prometo toalha
Ou legume, isso é detalhe.
No entanto alerto,
Para que não reclame,
Talvez haja um crânio
Se for desejo de Cézanne.

Deixe que seque
Essas palavras
Se são elas
Fruto amargo
Da minha natureza
Essencialmente morta.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dias (finais)


Quando a febre da noite
Começa a cessar
E a saudade toma o alaúde
Para uma última canção,
Quando a cidade,
Feito Fogo ralo, se apagar
E o que é breve
Tornar-se imensidão,
Verei a execução
Dos meus dias
Em horas,
Em forcas,
Receberei o que
Me é de reserva
Sem honras,
Sem forças.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dias(infernais)


Rasgam-se
As nuvens dos meus olhos
E delas desaba chuva.
A água percorre meu corpo:
Que se faz terra firme e fria.

Das nuvens também
Escorre vinho tinto.
Meus olhos agora rubros
Estão, agora, cegos.

Do interior das densas nuvens
Caem vidas inteiras
Que voavam em asas de cera.
Caem anjos,
E a legião em terra firme
Faz-se um exército de demônios.
Estão enfim decretados
Os dias infernais.