quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Desonra

Não há prosa que chegue
para seu alfabeto de flechas,
cada linha vazia
se curva num arco,
rimador em pele de arqueiro
mira o pé da letra,
não fere o tronco,
acerta o fruto,
maldito fruto: a palavra
que desonrado sangra.
Carnes rijas, fortaleza seca,
sem sementes, reage, incisivo,
mostrando os dentes,
treme em estalos, esforço vão:
perece no galho e ninguém colhe,
morre de capricho, de engano, sem razão.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

hematoma

o dia é uma quina de ferro;
eu, uma enorme perna;
a rotina, a dor desse choque.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Parte


A memória rabisca
um arcabouço de vida
meu coração:
sua embarcação, apita.
A hora é de partir,
átrios se apartam,
simulam o trágico.
O adeus é hemorrágico.
Quanto ao músculo
o prefiro em fatias
do que  fadigado
fadado à medida do pulso,
assado nas brasas do mundo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Escapes

A palavra que cuspo me devora
A ideia que culpo me doutrina
O pensamento que afogo me navega
A imagem que afago me dissipa
A frase falha facilita
O final arbitrário 
A maldição finita
Dos dias sem calendário
Da paz que me habita
Tudo finda, deserta, escapa
Exceto a fome da palavra.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Liberto

Viro à esquerda
De qualquer artéria
Sangue que pulsa
Pelos meus passos
Pereço num fluxo,
Trajeto de esquadros.
Permeio,me furto,
Planejo, descarto
As horas passadas
Que não passam
De um tempo que
Não é mais meu
Um tempo liberto
Liberto como eu,
Como um céu que
Se explode em chuva,
E não se aceita como
Lembrança quadrilátera .
De que adianta tanto azul
Se reduzido às vidraças
De um dirigível,
De que adianta ser imenso
Se na lembrança
Não se difere
De um quadro finito.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Aurora-sangue-e-brasa

O dia é o dragão de Jorge.
Cenário de sangue e brasa
É o anoitecer.
O dragão exausto da luta
desmaia, talvez só
adormeça.
A trégua é negra
como o luto.
Jorge enganado
se pensa vencedor:
um par de olhos
estrelados,
por apenas horas,
a íris se faz rubra
refletindo
a nova peleja:
o dragão desperta
aurora-sangue-e-brasa.

Médios atos

Em meio à tragédia
Da queda de uma louça
Se mobilizam os presentes
E se livram dos cacos
Quase que com a urgência
Do assassino que oculta o cadáver.
O imediato dilata pupilas:
Se desapercebe o sangue que respinga nas paredes,
Os pedaços de louça que se calam se camuflam
E passam a morar para sempre debaixo dos móveis.
Nos desencontros da vida
Se há pressa para algo findar
Mais das vísceras dele
Se esquece aos arredores de si.