quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Nau frágil

A minha sina é de naufrágio,
 fiz de ócio afundar.
A cada golfo, península, nova ilha
reconstruía embarcação,
fiz de ofício o concerto, o reparo.
Tornar novo, não tornava,
Apenas remediava.
Num meio desastre,
afoguei em terra firme:
areal da ilha fria
onde era noite todo dia.
O chão pálido, me acolhia;
o céu de gangrena, moradia
de corpos alados: humanos de cera voavam
com asas roubadas de aves em raridade.
O  vôo torto de rasantes,
a penumbra constante,
perturbava meu trabalho.
A embarcação renascia,
mas estava perdida
uma fatia de barco.
Mergulhei até a pele embranquecer,
até criar brânquias.
Fincado estava o fragmento
no infinito fundo,
feito escalibur de netuno.
Minha força não bastava,
mas antes o sacrifício à tragédia
de quem falta com ofício.
Nas minhas mãos,
o pedaço de barco,
que do mundo de águas,
furou o fundo
e do buraco aberto,
fugiu a luz,
luz tanta que não se estancava.
Peguei o que procurava,
voltei à superfície em disparada
a tempo de ver o dia,
que se construía
derretendo a cera dos seres,
fazendo cair as penas
(já não era preciso penar).
O temporal de pluma
estendeu um tapete de cor,
espalhou-se em mim a certeza de ficar,
de ali me fincar em temporada finita,
minha primeira folga de naufragar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Volta

Novo dia de coágulo,
eterno vide verso.
Caem linhas do esquadro,
cada ponto, duas retas;
do traçado, uma cerca;
novo plano, muito ângulo.
minha testa contra o vértice
que aprendo a obedecer.
Sem levante, fico as voltas
como um bicho em movimento
constante circular.
De animal, só a tração;
de mim, a ironia;
de quem todos dias
procura dar a meia volta
e à volta e meia quer voltar.
Reclamo a roda, viva ou morta.
No compasso da vertigem,
Tropeço no bloqueio
E caio fora do cercado.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Desonra

Não há prosa que chegue
para seu alfabeto de flechas,
cada linha vazia
se curva num arco,
rimador em pele de arqueiro
mira o pé da letra,
não fere o tronco,
acerta o fruto,
maldito fruto: a palavra
que desonrado sangra.
Carnes rijas, fortaleza seca,
sem sementes, reage, incisivo,
mostrando os dentes,
treme em estalos, esforço vão:
perece no galho e ninguém colhe,
morre de capricho, de engano, sem razão.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

hematoma

o dia é uma quina de ferro;
eu, uma enorme perna;
a rotina, a dor desse choque.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Parte


A memória rabisca
um arcabouço de vida
meu coração:
sua embarcação, apita.
A hora é de partir,
átrios se apartam,
simulam o trágico.
O adeus é hemorrágico.
Quanto ao músculo
o prefiro em fatias
do que  fadigado
fadado à medida do pulso,
assado nas brasas do mundo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Escapes

A palavra que cuspo me devora
A ideia que culpo me doutrina
O pensamento que afogo me navega
A imagem que afago me dissipa
A frase falha facilita
O final arbitrário 
A maldição finita
Dos dias sem calendário
Da paz que me habita
Tudo finda, deserta, escapa
Exceto a fome da palavra.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Liberto

Viro à esquerda
De qualquer artéria
Sangue que pulsa
Pelos meus passos
Pereço num fluxo,
Trajeto de esquadros.
Permeio,me furto,
Planejo, descarto
As horas passadas
Que não passam
De um tempo que
Não é mais meu
Um tempo liberto
Liberto como eu,
Como um céu que
Se explode em chuva,
E não se aceita como
Lembrança quadrilátera .
De que adianta tanto azul
Se reduzido às vidraças
De um dirigível,
De que adianta ser imenso
Se na lembrança
Não se difere
De um quadro finito.